terça-feira, 15 de janeiro de 2019

A BUSCA DO EU! por Eneida Dias de Miranda


Certa oportunidade, escrevi dois poemas, que os intitulei: “A PROCURA”  e “BUSCA INSANA”.

Lembro bem das duas ocasiões em que os escrevi, o que é raro, e os motivos da minha inspiração, sempre depois de longas conversas com amigos, e que me fizeram ficar refletindo sobre os questionamentos objeto da prosa.

Ambos os poemas tratam da busca.

Apesar de as motivações serem convergentes,  pois se distinguem quanto ao foco, a busca a que me reporto é a mesma, a busca do eu, nas duas hipóteses.

O assunto, a meu ver, está muito em destaque, acredito que pela realidade atribulada por que passa a humanidade.

Apontar as razões e os motivos pelos quais chegamos a esse ponto é de difícil certeza, pois, a bem da verdade, nem se sabe exatamente como, quando, onde e por quem começou.

É sabido que desde que o mundo é mundo há corrupção, contravenção, prostituição, promiscuidade, mentiras, incertezas e muitas mazelas outras. Ocorre que, pode-se dizer com convicção, nunca num nível como dos últimos anos, de forma organizada, “institucionalizada”, enquadrilhada, com o poder de atingir a todos, de forma tão contundente, os efeitos destes crimes, comportamentos ou contravenções praticados.

O que é certo é que o mundo vem passando por uma reviravolta de deixar apoplético até o humano mais cético. Reviravolta essa que está fazendo com que as pessoas se ressintam de força, lógica, discernimento  e bom-senso,  o que está retirando das pessoas todo o sentido da vida, provocando um sentimento de ausência de si próprio, falta de identidade, passando elas a demonstrar fragilidades significativas no âmbito emocional, com comportamentos dúbios, inseguros, incoerentes, pusilânimes, enfim, muitas, literalmente, já  nem sabe quem são, se definindo em vários segmentos da vida por influência dos outros que, por sua vez, já foram influenciados, formando uma corrente com elos frágeis, que não se sustentam como família, como grupo e muito menos como sociedade organizada, com equilíbrio.  

O desdobramento, a consequência de tudo isso é o que estamos a observar e conviver. É um verdadeiro tumulto, ninguém se entende, até porque ninguém está sabendo sequer se expressar, eis que já não há mais paciência, vontade de compreender, compaixão. Foram deixados para trás valores e atitudes essenciais à boa convivência, ao bem viver, ao respeito com o próximo.

A individualidade encontra-se muito exacerbada. Inexiste um olhar para o semelhante. E, uma vez o egoísmo instalado, vem o desacerto natural das atitudes de cunho pessoal, tomadas justamente por quem não está no seu melhor desempenho emocional.

Está a sociedade tão devastada que está enveredando, digamos, num estágio deveras preocupante: a normose. Conceito de filosofia para se referir a normas, crenças e valores sociais que causam angústia e podem ser fatais. Em linhas gerais, seria o achar normal da maioria para aquilo que não é normal, que afeta, que desintegra, que corrompe, que vicia, mas que a prática recorrente de muitos, aliada à ausência de vontade de outro tanto em ter vontade própria, poder de reação, num autêntico maria-vai-com-as outras, vai internalizado ser normal tais atitudes e comportamentos.

O ato de raciocinar, criar, inovar, expor, praticamente não encontra mais espaço na sociedade. E muito disso, creio eu, reside no receio de agir diferente e não ser aceito, mesmo declinando da possibilidade de fazer a diferença, quem sabe até com valorosas colaborações para a humanidade.

É verdade que muitas vezes causa estranheza tanto desacerto, pois também é fato que alguns até buscam um melhor equilíbrio, mas a dificuldade, penso, está exatamente na forma como se busca e na resistência em achar que não merece receber, o que potencializa a dificuldade em aceitar o bom, que muitas vezes  está bem ali, a seu alcance.

Como me expressei no poema A PROCURA, tenho para mim que, “Se cada um procurasse um pouco dentro de si, encontraria, decerto, tesouro que não se avalia; Encontraria sua alma, seus planos, sonhos e metas; Encontraria também o  partilhar dessa festa com os irmãos desta vida, companheiros sem discussão, e logo contentaria, porque neles acharia o viver com emoção!”

Um outro aspecto da busca, que é equívoco recorrente, em geral, como já dito linhas antes, é a insistência de não vermos sempre o que está tão próxima de nós, a famosa recalcitrância.

Aí, o poema supra falado também explora, com sensibilidade, dizendo assim:  “Se cada um procurasse um pouco mais perto de si, encontraria, decerto, valores, coisas e amores que a vida toda buscou tão longe, em mares profundos, talvez porque o horizonte, tão belo, longe, distante, abriga lá as estrelas, que permite aos olhos o alcance. Ocorre que, muitas vezes, ao nosso lado descansa um bem de real valor, com toda  significância, mas o humano que há em nós insiste na recalcitrância.”

Então, observo que a busca do eu, nos tempos atuais, passa por uma compreensão rasa, que não ajuda a trazer nenhuma realização verdadeira. Quero conceber que o encontro do eu só é possível quando se está reconciliado consigo próprio, o que equivale dizer: a pessoa deve estar satisfeita realmente com o que é. Acredito que estando a criatura se sentindo perfeitamente instalada na sua condição humana, o desdobramento de sua vida no tocante às suas atividades se dará com outra ênfase, qual seja, uma satisfação que preenche a alma e, por consequência, massageia o ego, que é natural. Caso contrário, tudo que se faz ou se constrói terá sempre um caráter de fuga ou necessidade de demonstração, o que se constitui num prazer efêmero, que, cessada a euforia por aquele ato ou fato, a sensação de vazio, de se estar num lugar inadequado, incompatível, superdimensiona.

No ritmo deste escrito, que vem se utilizando dos poemas citados no início do texto para ilustrá-lo, mais uma vez me valho de trecho de A PROCURA para sugerir uma maneira de buscar aquilo que lhe integralize e que seria da seguinte forma: “A busca se daria num fazer  de dupla ação, seria com os olhos da alma e também com os da razão; busca assaz prazerosa, que logo toca o coração.”.

Por vezes, penso que um outro fator que atualmente dificulta bastante a busca do eu, de encontrar-se, perpassa pelo olhar de desejo, de querer, para o objeto equivocado. Se mira naquilo que muitas vezes, ou quase sempre, pouco ou nada vai acrescentar à sua essência, ao que dita o seu coração, e que, justamente por não estar a pessoa orientada emocionalmente, não o escuta e tende a ir ao encontro do alvo equivocado.

O poema BUSCA  INSANA, acredito, bem coloca o questionamento quanto a esse foco.

“A vida é uma eterna busca, uma procura desmedida, se almeja tantas coisas, muitas delas sem valia, e quando são encontradas, por vezes, nem tem serventia.

Do trabalho ao dinheiro, da beleza à saúde, existem muitas nuances, e tudo, então, se confunde. Do amor à amizade, do lazer ao prazer fugaz, causando não tão raro um dissabor contumaz.

Se se acha um trabalho bom, que sustenta e gratifica, mas se não for muito o dinheiro nele sequer ninguém fica.

O culto à beleza é intenso, uns confundem com saúde, exige esforço severo e escraviza as atitudes.

O amor é o campeão de busca e necessidade, mas, em geral, se esquece fácil o valor da  amizade.

O lazer é essencial, ele une, faz amigos, mas o prazer iníquo deixa em todos um vazio."

IMPORTANTE QUE A VIDA FOSSE OPORTUNDADE DE PARTILHAR COM OS DEMAIS UMA SAUDÁVEL REALIDADE!

A impressão que o dia a dia nos passa é de que parece ser muito difícil esse encontro do eu, essa construção humana com um florescer profícuo. Entretanto, como dito, se se seguisse o conselho exposto no poema, qual seja, “A busca se daria num fazer  de dupla ação, seria com os olhos da alma e também com os da razão;” e fossem devidamente observados os contrapontos do poema BUSCA INSANA, passaríamos a considerar o que é real e buscaríamos a FORÇA INTERIOR que está instalada lá no íntimo de cada um, à espera do nosso precisar, elementos facilitadores sugeridos para que esse  processo do encontro consigo próprio se desse em bases sólidas, alicerçadas e de forma natural.

(Eneida D M)







A BUSCA DO EU,

Artigo do Livro A Poética Vivência do Ser!, Eneida Dias de Miranda


3 comentários:

  1. " A busca insana " pelo prazer momentâneo, nos tira o foco daquilo que aqui viemos fazer, amar, aprender. Excelente motivação à reflexão e à mudança de valores e atitudes, amiga xará escritora Eneida Dias Miranda. Parabéns!

    ResponderExcluir
  2. Eneida sempre me encanto com suas Poesias, mas esse texto me apaixonou. Suas colocações estão perfeitas. Continue me encantando... 👏👏👏👏

    ResponderExcluir